quarta-feira, 11 de março de 2009

Sem título


As cinzas do último cigarro tragado ainda exibiam vitalidade, fato que comprovava sua recém-saída da sala. Junto ao copo de tequila inacabado, algumas anotações e fotos remetentes à infância. Mesmo com todo o cenário visivelmente desarrumado, uma imagem colocada num porta-retrato de bordas dourado cintilante destacava-se.
Ao som de um legítimo tango argentino, seus movimentos se revezavam entre o gole de café e mãos sobre o teclado do computador. Este, por sinal, era sua única e fiel companhia de todas as noites, não que fosse a mais desejável delas, mas sua presença era assídua (querendo ou não!)
Sempre que concluía suas obrigações, geralmente quando a madrugada adentrava, dirigia-se à sacada para fumar seu derradeiro cigarro e fotografar com o olhar a lua. Olhar este que exprimia além de um pedido de socorro, o forte desejo de refugiar-se ali, nas entranhas tão serenas que sugeriam o mundo lunar.
O despertar de um dia para aquele sujeito nada mais era que uma obrigação de viver e cuidar das coisas que lhe cabiam. Contudo, numa das noites na qual tinha tudo para acabar como as outras tantas, a mesmice foi quebrada...
Sua mente fora tomada por um surto epifânico e seu corpo levado a fazer movimentos desordenados, incontroláveis pela vontade. Em alguns segundos, o sumiço! O apartamento já não era mais o mesmo; o caos tornou-se ainda maior.
Em meio à paisagem grotesca, algo permanecia intacto... O porta-retrato continuava no seu mesmo lugar, contudo, com um dourado ainda mais cintilante.