
A figura da borboleta saindo do casulo talvez tenha sido a cena mais fantástica que viu na vida. “Como um ser tão esplêndido consegue se esconder por trás de uma capa tão medonha?” Ao mesmo tempo em que lhe causou fascínio, o fenômeno a fez sentir uma sensação intrigante, levando-a para dentro de si. A partir disso, concluiu que as diferenças entre ela e o inseto eram mínimas; o que os distinguiam eram a coragem e ousadia deste último.
-Volta pra almoçar?- perguntou Ana, mais como uma obrigação do que necessariamente para se obter uma resposta, já que há muito o marido só retornava pra casa na hora do jantar. Mas ela já se acostumara; não tinha o marido à mesa do café, à mesa do almoço... Ela não o tinha mais. Quiçá a enfadonha década de um casamento tão cotidiano o tivesse.
Este era o seu casulo. Ana procurava ao seu redor a seda que o compunha, mas só enxergava paredes, móveis, eletrodomésticos, nada mais que isso. Mesmo assim estava convicta de que aquele era seu casulo. Pela janela de sua casa via o mundo lá fora com um olhar que extravasava um pedido de socorro e desejo de estar ali, voando como uma borboleta.
-Como passou hoje?- Era sempre assim: Ana fingia interesse na vida do marido e enquanto este respondia voltava-se para suas coisas e só concordava com o que dizia, mesmo não ouvindo nenhuma palavra. Assim era seu casamento, uma obrigação a ser cumprida até o último dia de sua vida. Nada mais poderia ser feito, era essa sua sentença: “amar” o marido até que a morte os separasse, mesmo que para isso fosse necessário simular sentimentos carcomidos pelo tempo.
Sentada na cadeira de balanço, cosendo algumas roupas, lançou seus pensamentos mais uma vez àquela borboleta. Por um momento viu-se libertando de seu casulo, abrindo suas asas e indo ao encontro de seus desejos e aspirações. Entretanto, logo caiu em si. Já não havia mais tempo de voltar atrás; sua condição estava determinada. Agora só lhe restava cumprir seu papel de lagarta.
Inspirado no conto ‘É a alma, não é?’, Marina Colasanti.

