quinta-feira, 16 de abril de 2009

Caros manequins,


Colocou-lhes as vestimentas com todo cuidado que o trabalho exigia. Estava convicto de que aquela seria sua última ida ao porão da casa, por isso tratou de despedir-se daquele lugar que durante muito tempo significou refúgio e sossego. Cada detalhe foi minuciosamente gravado pela mente, na qual a sensação de dever cumprido e lamentação equiparavam-se.
Enquanto preparava a comida de Sócrates, seu gato de estimação, lia no jornal as notícias referentes àquela segunda feira entediante. Antes de deitar-se, a figura de seus manequins tomou-lhe mais uma vez os pensamentos. ‘Será que ficarão bem?’ ‘Adaptar-se-ão à nova vida?’ Mesmo assim, não se sentiu arrependido pela decisão tomada. Ele queria amigos de verdade e não amigos sem movimentos, sem sentimentos, sem vida...
Como de costume, acordou bem cedo, preparou seu café e saiu para caminhar. Diferentemente dos outros dias procurou seguir por ruas vazias de lojas com vitrines, assim não encontraria nada que o fizesse mudar de ideia. Enquanto caminhava, procurava desvendar sob a aparência das pessoas que lhe cruzavam algo capaz de desfrutar amizade. ‘Quais os ingredientes necessários para se ter uma amizade verdadeira?’ Eram várias as dúvidas que pairavam sua mente naquele momento.
Foi assim durante um bom tempo... As pessoas passaram a ser vitrines e através destas, procurava enxergar seus manequins (ou pelo menos algo que os aproximasse). Penetrava pelos olhos na tentativa de alcançar a mente destas pessoas e finalmente encontrar aquilo que só eles possuíam. Contudo, frustrava-se. Ninguém era tão confiável e verdadeiro como seus manequins. Eles sim eram seres atenciosos e prestativos.
Desde que os deixara no porão, suas noites já não eram mais as mesmas. Era comum acordar assustado com os gritos advindos do porão. Eram gritos de dor. Solidão. ‘É para o nosso bem’, tentava justificar. O remorso fundia-se com saudade e construía infelicidade. Era esse seu estado: um ser desgraçado e corrompido pelo abandono.
Numa das noites que havia tudo para acabar como as outras tantas, o orgulho esquivou-se... Desta vez, os gritos infiltraram-lhe a mente de forma avassaladora e o fez tomar a decisão que há muito ignorou. A porta do porão foi finalmente aberta. Emocionou-se ao ver a feição de seus manequins; seus semblantes agora revelavam a felicidade do reencontro. Abraçou-lhes e sorriu: ‘Vocês sim são meus amigos!’

Um comentário:

  1. Parabéns Vinícius, o texto ficou ótimo! Por mais que eu tente, eu não consigo me aventurar neste tipo de contos que você escreve... Muito bom, muito bom mesmo!

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