quinta-feira, 16 de abril de 2009

Como num casulo


A figura da borboleta saindo do casulo talvez tenha sido a cena mais fantástica que viu na vida. “Como um ser tão esplêndido consegue se esconder por trás de uma capa tão medonha?” Ao mesmo tempo em que lhe causou fascínio, o fenômeno a fez sentir uma sensação intrigante, levando-a para dentro de si. A partir disso, concluiu que as diferenças entre ela e o inseto eram mínimas; o que os distinguiam eram a coragem e ousadia deste último.
-Volta pra almoçar?- perguntou Ana, mais como uma obrigação do que necessariamente para se obter uma resposta, já que há muito o marido só retornava pra casa na hora do jantar. Mas ela já se acostumara; não tinha o marido à mesa do café, à mesa do almoço... Ela não o tinha mais. Quiçá a enfadonha década de um casamento tão cotidiano o tivesse.
Este era o seu casulo. Ana procurava ao seu redor a seda que o compunha, mas só enxergava paredes, móveis, eletrodomésticos, nada mais que isso. Mesmo assim estava convicta de que aquele era seu casulo. Pela janela de sua casa via o mundo lá fora com um olhar que extravasava um pedido de socorro e desejo de estar ali, voando como uma borboleta.
-Como passou hoje?- Era sempre assim: Ana fingia interesse na vida do marido e enquanto este respondia voltava-se para suas coisas e só concordava com o que dizia, mesmo não ouvindo nenhuma palavra. Assim era seu casamento, uma obrigação a ser cumprida até o último dia de sua vida. Nada mais poderia ser feito, era essa sua sentença: “amar” o marido até que a morte os separasse, mesmo que para isso fosse necessário simular sentimentos carcomidos pelo tempo.
Sentada na cadeira de balanço, cosendo algumas roupas, lançou seus pensamentos mais uma vez àquela borboleta. Por um momento viu-se libertando de seu casulo, abrindo suas asas e indo ao encontro de seus desejos e aspirações. Entretanto, logo caiu em si. Já não havia mais tempo de voltar atrás; sua condição estava determinada. Agora só lhe restava cumprir seu papel de lagarta.


Inspirado no conto ‘É a alma, não é?’, Marina Colasanti.

Caros manequins,


Colocou-lhes as vestimentas com todo cuidado que o trabalho exigia. Estava convicto de que aquela seria sua última ida ao porão da casa, por isso tratou de despedir-se daquele lugar que durante muito tempo significou refúgio e sossego. Cada detalhe foi minuciosamente gravado pela mente, na qual a sensação de dever cumprido e lamentação equiparavam-se.
Enquanto preparava a comida de Sócrates, seu gato de estimação, lia no jornal as notícias referentes àquela segunda feira entediante. Antes de deitar-se, a figura de seus manequins tomou-lhe mais uma vez os pensamentos. ‘Será que ficarão bem?’ ‘Adaptar-se-ão à nova vida?’ Mesmo assim, não se sentiu arrependido pela decisão tomada. Ele queria amigos de verdade e não amigos sem movimentos, sem sentimentos, sem vida...
Como de costume, acordou bem cedo, preparou seu café e saiu para caminhar. Diferentemente dos outros dias procurou seguir por ruas vazias de lojas com vitrines, assim não encontraria nada que o fizesse mudar de ideia. Enquanto caminhava, procurava desvendar sob a aparência das pessoas que lhe cruzavam algo capaz de desfrutar amizade. ‘Quais os ingredientes necessários para se ter uma amizade verdadeira?’ Eram várias as dúvidas que pairavam sua mente naquele momento.
Foi assim durante um bom tempo... As pessoas passaram a ser vitrines e através destas, procurava enxergar seus manequins (ou pelo menos algo que os aproximasse). Penetrava pelos olhos na tentativa de alcançar a mente destas pessoas e finalmente encontrar aquilo que só eles possuíam. Contudo, frustrava-se. Ninguém era tão confiável e verdadeiro como seus manequins. Eles sim eram seres atenciosos e prestativos.
Desde que os deixara no porão, suas noites já não eram mais as mesmas. Era comum acordar assustado com os gritos advindos do porão. Eram gritos de dor. Solidão. ‘É para o nosso bem’, tentava justificar. O remorso fundia-se com saudade e construía infelicidade. Era esse seu estado: um ser desgraçado e corrompido pelo abandono.
Numa das noites que havia tudo para acabar como as outras tantas, o orgulho esquivou-se... Desta vez, os gritos infiltraram-lhe a mente de forma avassaladora e o fez tomar a decisão que há muito ignorou. A porta do porão foi finalmente aberta. Emocionou-se ao ver a feição de seus manequins; seus semblantes agora revelavam a felicidade do reencontro. Abraçou-lhes e sorriu: ‘Vocês sim são meus amigos!’

quarta-feira, 11 de março de 2009

Sem título


As cinzas do último cigarro tragado ainda exibiam vitalidade, fato que comprovava sua recém-saída da sala. Junto ao copo de tequila inacabado, algumas anotações e fotos remetentes à infância. Mesmo com todo o cenário visivelmente desarrumado, uma imagem colocada num porta-retrato de bordas dourado cintilante destacava-se.
Ao som de um legítimo tango argentino, seus movimentos se revezavam entre o gole de café e mãos sobre o teclado do computador. Este, por sinal, era sua única e fiel companhia de todas as noites, não que fosse a mais desejável delas, mas sua presença era assídua (querendo ou não!)
Sempre que concluía suas obrigações, geralmente quando a madrugada adentrava, dirigia-se à sacada para fumar seu derradeiro cigarro e fotografar com o olhar a lua. Olhar este que exprimia além de um pedido de socorro, o forte desejo de refugiar-se ali, nas entranhas tão serenas que sugeriam o mundo lunar.
O despertar de um dia para aquele sujeito nada mais era que uma obrigação de viver e cuidar das coisas que lhe cabiam. Contudo, numa das noites na qual tinha tudo para acabar como as outras tantas, a mesmice foi quebrada...
Sua mente fora tomada por um surto epifânico e seu corpo levado a fazer movimentos desordenados, incontroláveis pela vontade. Em alguns segundos, o sumiço! O apartamento já não era mais o mesmo; o caos tornou-se ainda maior.
Em meio à paisagem grotesca, algo permanecia intacto... O porta-retrato continuava no seu mesmo lugar, contudo, com um dourado ainda mais cintilante.